segunda-feira, 23 de abril de 2012

Máquina de fazer votos


Eles são cobiçados em ano de eleição e servem de elo entre o candidato e o povo: As lideranças comunitárias já estão em ritmo de campanha

Cláudio Oliveira
O ASSÉDIO POR parte dos políticos àquelas figuras conhecidas como líderes comunitários já começou e provavelmente será mais intensa no decorrer do ano, na medida em que se aproximarem as eleições municipais. São eles que fazem o trabalho de apresentar o candidato aos moradores e, por meio de sua atuação de liderança e influência que exerce a partir do seu trabalho, convencem que o seu candidato é o melhor. Em todas as regiões de Natal, por exemplo, a procura por tais lideranças é constante dependendo do interesse dos ocupantes de cargos políticos, mas a queixa dos líderes comunitários é quase unânime quando se fala dos benefícios que alcançaram para os bairros após as eleições: quase não há respaldo de cartos candidatos.

O NOVO JORNAL foi ouvir presidentes de conselhos e associações nas quatro regiões administrativas da capital para entender como funciona o trabalho e a relação deles com os candidatos antes, durante e após as eleições e constatou que mesmo desiludidos, voltarão a apoiar alguém ou vão dispor os próprios nomes aos moradores para representá-los na Câmara Municipal.

De acordo com Jair Dantas, que já participou do Conselho Comunitário de Santa Catarina na Zona Norte de Natal e hoje desenvolve um trabalho de combate às drogas na ong Amigos da Vida, em Ponta Negra, na Zona Sul, tudo começa com um convite. “Eles chegam, chamam para conversar e depois convidam para um trabalho no período eleitoral, geralmente em troca de alguma vantagem pessoal seja em dinheiro ou emprego”, revela.

Ele diz que antes do convite, o candidato já sabe se valerá a pena contar com o apoio daquela liderança, ou seja, se vai conseguir uma quantidade satisfatória de votos. “Eles avaliam pelo trabalho da gente. Mandam assessores para investigar como é a relação da gente com os moradores e se o trabalho que a gente faz rende votos”, explica. Para Jair, trabalhos com o público idoso ou com crianças não são os mais interessantes para os candidatos porque não renderia muitos votos.

A partir daí, durante a campanha, o apelo pessoal do líder comunitário é fundamental para conquistar votos para o seu candidato. Muitas vezes, devido às atividades dele, as pessoas já o procuram para saber quem ele está apoiando. “Tem mães que a gente atende porque os filhos são usuários de drogas. Elas ficam agradecidas e dizem que votarão em quem a gente indicar”, relata.

Esse tipo de comportamento dos moradores é comum, uma vez que pela gratidão e respeito, acreditam que o líder deverá indicar uma boa escolha. Mas o líder comunitário não espera que os moradores venham até ele. O presidente do Conselho Comunitário de Mãe Luíza, zona Leste da capital, Nilson Venâncio confirma e explica que o bom trabalho que o líder já desenvolve é fundamental, mas é preciso se esforçar na busca de votos. “É um trabalho sem parar do tipo porta a porta mesmo. Se os moradores reconhecerem nosso trabalho e confiarem no candidato, dá certo”, conta.

Em sua atuação comunitária há 20 anos, Nilson diz que já foi remunerado pelo trabalho algumas vezes quando concedia o apoio somente nos três meses de campanha. “Agora mudei a minha linha de trabalho e decidi procurar apoio para o bairro bem antes, assim o resultado é melhor porque recebemos o apoio permanente e não só em época de eleição”, declara.

Os líderes comunitários usam o respeito e o reconhecimento dos moradores na tentativa de transferir a imagem conquistada aos seus candidatos. Eles percorrem as ruas dos bairros, muitas vezes esburacadas e sem estrutura mínima, visitando as famílias. O principal alvo são as comunidades mais desassistidas.

Algumas pessoas solicitam um remédio, o pagamento de uma conta de energia ou de água, a emissão de um documento ou outra necessidade imediata como botijão de gás e alimentos. O líder comunitário é, muitas vezes, o intermediador para que esses pedidos sejam atendidos e geralmente, em época de eleição são, o que faz com que a confiança do eleitor naquele candidato aumente, impulsionada pelas palavras do líder comunitário.

Na maioria dos casos, tais palavras são proferidas em alto e bom tom nos enormes carros de som dos comícios. Subir no palanque e fazer discursos em prol dos seus candidatos é uma estratégia para convencer seus liderados. O líder comunitário empresta sua imagem e seu trabalho para o candidato escolhido. Foi assim que Nilson Venâncio atuou em outras eleições e diz que voltará atuar nestas, mas com mais certeza de que não errará na escolha, uma vez que se filiou ao partido dos Trabalhadores e há algum tempo vem aproximando os seus pretensos candidatos da população.

Todos garantem que tomam tal iniciativa por acreditar que o candidato prestará assistência ao bairro, porém, a maioria não resume seu interesse a isso. Eles são razoavelmente bem pagos pelo voto dos moradores.

Fonte: NOVO JORNAL

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